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Março 2012
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Clima

Quando se discute meio ambiente e mudanças climáticas hoje, não é mais possível deixar de fora do debate as favelas e comunidades periféricas. Os problemas decorrentes do aquecimento global são agravados pelas más condições de vida nestas...

Curadoria:
Sérgio Ricardo
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O calor que abala Bangu

por Paloma Silbar - 08/03/2012
Padre Miguel | RJ

O início de mês de março marca o fim do verão, desapontando os cariocas frequentadores de praias, piscinas e outras diversões ao sol. Já para muitos trabalhadores, a chegada do outono pode ser motivo de alívio. É o caso do carteiro Cléber Saraiva, que trabalha no centro comercial de Bangu. Durante o expediente, ele anda por diversas ruas de um dos bairros mais quentes do Rio de Janeiro, carregando peso e vestindo um uniforme abafado. Para Cléber, trabalhar durante o verão significa cansaço em dobro. “Tem dias que chego em casa com a cabeça explodindo”, afirma.

O calor escaldante de Bangu não é uma novidade deste verão. O bairro, localizado na zona oeste da cidade, é conhecido no Rio de Janeiro por suas altas temperaturas. E não é por menos: Bangu detém o recorde de 43,1°C, a maior temperatura registrada pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) na cidade, marcada em 1984. Tadeu Santos, que mora no bairro e estuda na Ilha do Fundão, diz sentir uma diferença de temperatura entre os dois locais. “O Fundão, mesmo quente, é sempre um pouco mais fresco que Bangu”, constata.

Algumas peculiaridades geográficas caracterizam o bairro como um dos locais mais quentes do Rio de Janeiro. A distância do mar, que é grande se comparada ao resto da cidade, é uma delas. A baixada de Bangu está localizada entre dois grandes maciços: as serras do Gericinó e da Pedra Branca. O maciço da Pedra Branca, localizado ao sul, forma uma espécie de paredão que impede a entrada de brisa marítima na região. Estando “confinado” entre essas duas cadeias montanhosas, o local se torna propício à formação de ilhas de calor.

Claudison Rodrigues, coordenador do programa educativo e de divulgação científica do Museu do Meio Ambiente, definiu as ilhas de calor como “locais onde a temperatura é maior do que em outros por possuir pouco verde, baixa circulação de ar e solos impermeabilizados por asfalto”. Este é um fenômeno próprio das grandes cidades, como o Rio de Janeiro, na qual a temperatura média costuma ser mais elevada do que nas regiões rurais próximas. 

Segundo o estudo sobre o campo térmico na cidade do Rio de Janeiro, de Ana Maria Brandão e José Roberto Tarifa, os bairros localizados entre estes dois maciços “sofrem a influência do aquecimento catabático do ar, estando sujeitos a frequentes calmarias ou ventilação fraca”. Catabático é um tipo de vento que transporta uma alta densidade de ar de uma elevação, descendo a encosta devido à ação da gravidade. Ainda de acordo com a pesquisa, são essas características topográficas que tornam “o local famoso pelo registro de temperaturas muito elevadas, não raro, ultrapassando os 40°C, no verão”.

Assim como na análise acima, o geógrafo Andrews José de Lucena, um pesquisador do campo térmico da zona oeste, identificou um sistema de ventos “frequentemente e exclusivamente no vale da baixada de Bangu”, que ele chama de efeito Fohn. “Fohn ou Chinook é um forte vento seco e quente que se desenvolve a sotavento de uma cadeia montanhosa, quando o ar estável foi forçado a passar por sobre a barreira montanhosa.” Estes dois estudos caracterizam a região de Bangu como uma área favorável à formação de um vento seco e quente a partir das cadeias de montanhas que a cerca.

 

Dias de sol, noites mal dormidas

As altas temperaturas têm interferido na qualidade de vida dos moradores da região, tornando as rotinas diárias mais cansativas e atrapalhando o sono. Tadeu, por exemplo, afirma que é na hora de dormir que o calor mais incomoda. Sem ar condicionado em casa, ele toma algumas providências para conseguir pegar no sono. “Pra dormir neste tempo, eu preciso de banho gelado, pelo menos dois ventiladores e o mínimo de roupa possível.”

Por este motivo, é no período da noite que o maior número de ventiladores e ares condicionados está ligado a toda potência pelas residências da região. Quanto mais calor, maior é a sobrecarga no sistema de distribuição de energia elétrica. É provável que esta sobrecarga tenha sido a responsável pelos dois apagões que aconteceram nas noites dos últimos dias 28 e 29 de fevereiro no bairro de Padre Miguel, vizinho de Bangu. Sheila Garcia é moradora do local e conta como foi: “A luz acabou por volta das dez da noite, quando eu estava vendo televisão. Fazia muito calor no dia, não consegui dormir até a luz voltar”. Segundo Sheila, ainda no dia 29, a eletricidade só voltou a funcionar por volta de meia-noite, duas horas depois.

Ela também falou sobre o aumento expressivo da conta de luz durante o verão. Sheila compara os valores de gastos de energia referente a novembro, mês de primavera, e janeiro, mês caracterizado pelas mais altas temperaturas do ano: “A conta de luz de novembro veio 64 reais. Em janeiro, ela veio 83 reais”. A diferença entre os valores representa um aumento de mais de 30%. Para a própria moradora, a explicação para isto está no calor. “Ficamos com o ventilador ligado a noite toda. Isso pesa no final do mês”, explica.

 

Problemas ambientais: Desenvolvimento insustentável e Desmatamento da Pedra Branca

Além das condições naturais do bairro, o excesso de calor em Bangu também pode ser associado à ação humana que se intensificou na região a partir da década de 60. Atualmente, Bangu é o segundo bairro mais populoso do Rio de Janeiro, perdendo para o vizinho Campo Grande. Segundo os dados de 2010 do portal geo, do Instituto Pereira Passos, o número de residentes é de 243.125. 

Lucena indica que ocorreu um aumento maior que 1°C durante as décadas de 80 e 90 no bairro. Lembrando que a formação de ilhas de calor é um fenômeno também causado pela presença de asfalto e edificações, além da poluição do ar por gases do efeito estufa. Apesar de ser uma área predominantemente residencial, Bangu possui um trânsito intenso de carros e ônibus ao longo de suas principais avenidas que cortam o centro comercial.

O autor também identificou “perdas significativas da cobertura vegetal da Pedra Branca e do Gericinó, estimuladas pela expansão da ocupação nas encostas” como um dos fatores responsáveis por este aumento de temperatura. Dentre esses danos ambientais, destaca-se o do Parque Estadual da Pedra Branca, que é considerado a maior reserva florestal em área urbana do mundo e que detém o ponto culminante da cidade do Rio de Janeiro: o Pico da Pedra Branca, que mede 1.025 metros de altura.

Segundo o site dos Amigos do Parque da Pedra Branca, cresce o processo de favelização e ocupação irregular ao longo da área. O portal também chama a atenção para a exploração das pedreiras, queimadas e desmatamento para pastagens e expansão de culturas. Tudo isso tem contribuído para a diminuição da área verde do Parque, que apesar de possuir uma rigorosa legislação ambiental, não recebe ações regulares de fiscalização e reflorestamento por parte do poder público.

 

Soluções: chuveirinho ou arborização?

O chuveirinho do calçadão de Bangu, que não funcionava há mais de dois anos, voltou a espichar suas gotículas de água há alguns dias, graças às obras de manutenção que estão sendo realizadas. Foi em 2002 que o centro comercial recebeu esse sistema de climatização que ajuda a ameniza o calor dos passantes. Para Jane Barreto, frequentadora do centro de Bangu, o chuveirinho ajuda bastante a suportar as altas temperaturas. “Quando está muito quente e o calçadão está cheio, só o chuveirinho para aliviar o calor”, diz ela.

Apesar da comprovação de sua eficácia no calçadão, o chuveirinho está longe de ser a solução para as ilhas de calor que se formam. A medida mais eficaz para diminuir as temperaturas é o plantio de árvores e preservação das áreas verdes. Segundo Flávio Telles, diretor de arborização da Fundação Parques e Jardins, as vistorias feitas pela cidade indicam que na P5 (que abrange Bangu, Campo Grande, Santa Cruz, entre outros) há uma grande demanda por árvores urbanas. “As áreas na qual fazemos mais trabalhos de arborização são as áreas da P3 (zona norte) e P5, justamente porque são as mais necessitadas nesse sentido”. 

Os dados e análises de diferentes especialistas e o depoimento de moradores confirmam o que a crença popular já sabia: Bangu é quente. E a geografia do local é a grande responsável por isto. Porém, em tempos de aquecimento global, a ação humana, o crescimento desenfreado, o desmatamento e  a poluição podem ajudar a piorar essa situação. E o círculo é vicioso: quanto mais calor, mais energia é preciso para o ar condicionado. E se a energia não for gerada de forma limpa, ajuda ainda mais na proliferação dos gases de efeito estufa. Neste cenário, quem mais sofre são as populações mais pobres, que muitas vezes não têm acesso à sistemas de refrigeração. As mudanças climáticas globais são uma realidade, vide o aquecimento global. As mudanças locais também são, vide as ilhas de calor. Bangu é quente, mas pode ficar pior. 

Fotos por: Paloma Silbar

Imagens
Foto: Paloma Silbar - O carteiro Cléber trabalhando no sol de 41ºC
Foto: Paloma Silbar - Vista do Bangu Shopping, antiga Fábrica. Ao fundo, o Pico da Pedra Branca
Foto: Paloma Silbar - A Prefeitura mantém placas que indicam as obras de revitalização do calçadão
Foto: Paloma Silbar - Calçadão de Bangu, já com o chuveirinho funcionando


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Comentários

imagem de gfalronrah

Eu tava lendo sobre o calor.

Ao menos, agora em julho o frio dá uma compensada neste calor todo.

imagem de Juliana Portella

Adorei a matéria! ótimo o texto, ótima pauta!

imagem de joaopoa

Realmente..

O calor em Bangu deve estar demais!

Eu sou acompanhante destas notícias de calor,e é terrível!

imagem de DaniGuedes

Palomita, parabéns pela matéria, bem apurada, cheia de dados, estatísticas, estudos... Completíssima!

imagem de Renato Oliveira

Uma verdadeira saga em busca da noticia! Guerreira vc heim? Parabéns! rsrs!

imagem de Paloma Silbar

Apenas 2 litros. E passei mal umas três vezes! rs

imagem de Renato Oliveira

Quantos litros de água você bebeu durante a sua estadia por lá? rsrsrs!

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