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Conscientização ajuda a revitalizar área da Rocinha

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José Ricardo em uma das trilhas do Laboriaux

José Ricardo em uma das trilhas do Laboriaux. Local agora conta com preservação feita pelos moradores da região (Fotos: Arquivo Pessoal)

Uma área no alto Rocinha que sofria com a falta de saneamento básico e com o esgoto despejado direto na mata, vem se revitalizando por conta de um movimento chamado Preserva Laboriaux, que luta pela preservação da localidade que leva o mesmo nome.

O projeto, que envolve instituições, moradores e protetores do meio ambiente, já trouxe mudanças significativas na região. Todo domingo, por exemplo, o Cine Clube Caixinha Verde oferece sessões de cinema ao ar livre, seguidas de debates que discutem questões de meio ambiente da comunidade. A Escolinha de Arte Urbana, o centro social realizado dentro da futura sede da associação de moradores e a iniciativa de turismo sustentável de base comunitária são outros avanços na direção de uma comunidadecada vez mais entrosada com a floresta e seu entorno.

“O fato de o movimento ter se iniciado na comunidade, ou seja, ter sido criado, desenhado e implementado pelos próprios moradores, facilitou a realização da iniciativa. Já a estruturação, que aconteceu posteriormente com o Favela Verde e os outros parceiros foi importante para potencializar o projeto e conseguir novas parcerias, financiamento e visibilidade“, explica Eva Vilaseca, coordenadora da ONG Favela Verde, uma das instituições envolvidas no Movimento Preserva Laboriaux, que conta ainda com a Associação de Moradores do Laboriaux e da Vila Cruzado e com o Parque Nacional da Tijuca.

José Ricardo e Gabriel Voto - de camisa clara e barba - na premiação do Rio 450

O grupo, durante a entrega do prêmio de Ações Locais Rio 450

Foi a visita de Eva Vilaseca e do biólogo Gabriel Voto à Rocinha, em 2013 – mesmo ano da reativação da Associação de Moradores do local – que o Movimento Preserva Laboriaux se iniciou. Surgia assima parceria com a Favela Verde, que possibilitou ao projeto arrecadar verba para suas ações, já que a ONG tinha mais meios institucionais para concorrer a editais, como um um CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica), por exemplo.

“Muitos companheiros sugeriram que fosse pedida uma contribuição do morador, mas discordei, porque os moradores já se sacrificam com as contas pessoais. A associação tem que trabalhar para o moradore e com ele deve lutar pela qualidade de vida, mas jamais cobrar por isso”, acredita José Ricardo, atual presidente daAssociação de Moradores do Laboriaux e da Vila Cruzado, cujo mandato vai até 2017.

Para alavancar os trabalhos, o grupo conseguiu uma importante vitória na área financeira: o Prêmio de Ações Locais, uma iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, do Comitê Rio450 e do Instituto Eixo Rio. Os 85 projetos selecionados receberam uma verba para realizar suas atividades ao longo de um ano, que serão incluídas no calendário comemorativo dos 450 anos do Rio. “Essa premiação tem facilitado a nossa atuação, já que, com esse dinheiro, foi possível realizaro Cine Caixinha e outras ações”, conta José Ricardo.

Para definir um calendário de atividades, o grupo se mantém em contato através de reuniões regulares. Às vezes são feitas numa igreja, outras em um bar ou, até mesmo, na rua. Quem marca presença nessas reuniões são os participantes de uma iniciativa semelhante à da Rocinha, mas que atua no Complexo do Alemão: o Verdejar, que também conta com o apoio da ONG Favela Verde. Em todos esses encontros há a produção de um diagnóstico técnico que possibilita levantar demandas que serão encaminhadas aos órgãos públicos e às universidades.

Um desses diagnósticos mostrou, por exemplo, que o Laboriaux tem um alto potencial turístico e ambiental. “Nós estamos inseridos dentro do pulmão da cidade e essa lógica de preservação serve para a Rocinha e para a floresta do entorno. Esse trabalho de cuidar do espaço urbano e de limitar o crescimento horizontal, que seria para dentro da mata, contribui para a qualidade de vida da cidade como um todo”, acredita o presidente.

Atualmente,as ações desenvolvidas respondem ao diagnóstico socioambiental e as próximas atividades do Movimento Preserva Laboriaux serão nesse sentido, como revela José Ricardo: “Vamos levar um grupo para fazer um curso de primeiros socorros ligado ao ecoturismo no Corpo de Bombeiros da Tijuca e realizar uma capacitação de trilhas, a ser realizadana própria comunidade, ministrada pelo presidente do Parque Nacional da Tijuca”.

Ele lembra ainda que no primeiro momento o Parque Nacional da Tijuca não foi muito receptivo ao pedido de apoio do grupo que queria replicar a iniciativa. A solução veio então com a eleição do conselho consultivo da instituição. “Descobrimos que iria ter essa eleição e acabamos sendo diplomados. Com isso deixamos de propor de fora para dentro, pois, como conselheiro, pude colocar o assunto como pauta”, comemora o líder comunitário.

A liderança que surge na tragédia

Cine Caixinha promovendo conciência socioambiental

O Cine Caixinha serve para promover a consciência socioambiental nos moradores do entorno do Laboriaux

Em abril de 2010, uma chuva torrencial castigou a cidade do Rio de Janeiro. Na Rocinha, provocou deslizamento e a morte de dois moradores que se recusaram a sair de casa. Foi esse acontecimento que levou José Ricardo Duarte a abraçar de vez a ideia de ser líder comunitário. “Nos meus mais de vinte anos morando no Laboriaux, sempre tive um bom relacionamento com meus vizinhos e acabei me tornando uma referência”, contao ex-sargento da Marinha. Naquele dia, José Ricardo e um grupo de moradores começaram, logo pela manhã, a conversar com quem permanecia nas áreas de risco. “Até o meio dia tínhamos anotado os nomes de 35 pessoas que não sabiam do perigo a que estavam expostas”, lembra.

Ao lado de representantes de órgãos governamentais, Ricardo passou três dias trabalhando na comunidade, orientando os moradores e participando de reuniões. Todo o esforço acabou causando um problema para ele que, à época, estava na ativa: “Apesar de levar fotos comprovando que estava envolvido com a questão da chuva, tomei um esporro assim que cheguei no quartel”, lembra Ricardo, que, após um mês, recebeu uma menção honrosa.

Devido as mortes e a repercussão do caso na imprensa, a Prefeitura notificou todas as casas, mesmo as que não estavam próximas das áreas de risco, para serem removidas e ainda fechou a Escola Municipal Abelardo Chacrinha Barbosa, além de interditar outros espaços públicos. A mobilização foi automática entre os moradores, já que o então presidente da associação, Antônio “Touceira” Ximenes, morto em 2011, estava impossibilitado de exercer suas funções por estar doente.

“Resolvemos montar uma comissão de moradores e fomos para a Pastoral de Favelas, para a Defensoria Pública, participávamos de reuniões do grupo Rocinha Sem Fronteiras, procuramos técnicos e imprensa. Toda essa movimentação culminou na reabertura da escola e na permanência dos moradores na comunidade”, lembra com entusiasmo José Ricardo.

Antônio Martins o 'Belo' mostra a cerca e a contenção feita pela prefeitura

“Belo” mostra a cerca e a contenção feitas pela Prefeitura

O comerciante Antônio Martins, 58 anos, conhecido como ‘Belo’, foi um dos moradores que participou dessa comissão e conta ter sido uma luta fazer o prefeito Eduardo Paes mudar de ideia: “ao invés de remover os moradores, a ideia era fazer a obra de contenção”. A ameaça de remoção, porém, promoveu uma devastação no Laboriaux, já que vários moradores perderam o interesse em se manter ali, o entulho das casas que chegaram a ser demolidas não foi retirado e a qualidade de vida piorou. As coisas só começaram a melhorar com a reabertura da Escola Municipal.

Hoje, é exatamente essa posição geográfica do sub-bairro, na parte mais alta da Rocinha,que faz com que o Movimento Preserva Laboriaux seja desenvolvido para preservar essa região da comunidade. “Dentro de qualquer beco é possível ver o céu, há ventilação, as ruas têm um tamanho que permite uma boa mobilidade, as crianças podem brincar na porta de suas casas e os vizinhos podem sentar na calçada para uma conversar”, conclui José Ricardo.

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