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Homicídio de jovens negros preocupa Anistia

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Yasmin Thayná, Atila Roque, Flávia Oliveira e Leonardo Sakamoto participaram do debate de lançamento do relatório da Anistia Internacional (Fotos: Lucas Jatobá/Anistia Internacional)

“Quem deveria ter medo não está com medo, mas está pagando um preço alto”, afirmou Átila Roque, diretor da Anistia Internacional do Brasil, sobre os jovens negros assassinados no Brasil. Este foi o tom do lançamento do relatório da Anistia Internacional 2015/2016, que mostra que o país tem sofrido graves violações aos direitos humanos, principalmente nas questões de segurança pública. O documento mostra que alto número de homicídios de jovens negros continua sendo uma das maiores preocupações da Anistia em relação ao Brasil.

O evento contou com um debate onde os participantes falaram da importância de discutir o tema Direitos Humanos sob outras perspectivas. Átila começou destacando a relevância de fazer um diálogo entre o que está na superfície e que pode ser facilmente identificado e o que está em locais mais profundos. “O ano de 2015 apresentou um retrocesso a direitos já estabelecidos. A presidência da Câmara foi um exemplo claro disso. Eles trouxeram de volta a pauta da redução da maioridade penal, Lei do Aborto…esses temas estão na superfície. Mas se analisarmos a fundo, essas disputas são seculares, já que os pilares que organizam a sociedade sempre foram pautados no racismo e violência”, explica.

Relatório destaca casos 

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Monica Cunha cobrou a presença das esferas governamentais no evento.

O documento fala dos casos ocorridos no ano passado, como o do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, assassinado por policiais no Complexo do Alemão; o de Vitor Santiago, baleado por militares na Maré e ficou paraplégico, além dos cinco jovens de Costa Barros que levaram 111 tiros da polícia. Isso só no Rio de Janeiro. No Brasil ainda tiveram a chacina do Cabula, na Bahia e os 37 mortos em Manaus, no Amazonas, entre outros. O documento aponta que “a falta de transparência na maioria dos estados impossibilitou que se calculasse o número exato de pessoas mortas em consequência desas operações. Nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, a quantidade de pessoas mortas por policiais no cumprimento de suas funções aumentou significativamente”.

Representantes das famílias de jovens assassinados participaram do debate e pediram justiça. Monica Cunha, fundadora da ONG Moleque e que também teve um filho assassinado cobrou mais responsabilidade das esferas governamentais com esse assunto. “O governador tinha que estar aqui, o secretário de segurança também. Eles precisam ser responsabilizados por esses crimes. A gente quer justiça para nossos filhos, não queremos que as pessoas tenham pena da gente, nós estamos atrás de justiça”. Irone Santiago, mãe de Vitor, contou que há um ano busca justiça para o filho. “O Estado atirou no meu filho e até agora não ganhei nem um pedido de desculpas. Tem dia que não tenho uma gaze para colocar no meu filho, há um ano vivemos essa impunidade”, revolta-se.

O relatório diz que das 220 investigações sobre homicídios cometidos por policiais abertas em 2011 na cidade do Rio de Janeiro, houve, até 2015, somente um caso em que um policial foi indiciado. Em abril de 2015, 183 dessa investigações continuavam abertas.

Juventude é população mais vulnerável

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Yasmin falou que é necessário pensar em políticas públicas para a juventude

A cineasta Yasmin Thayná, que estava na mesa de debate, destacou que direitos básicos são diariamente violados quando o assunto é a população mais pobre. “Para quem circula de trem e metrô já percebe uma série de violações. As pessoas tem que se empurrar e se bater para usar o transporte e esse deslocamento acontece em condições precárias”. Ela ainda falou sobre a ausência de políticas específicas para a juventude, que deixa ainda mais vulnerável esta faixa etária. “Os jovens estão aí inventando suas narrativas, mas ninguém cria uma política pública para eles”.

A afirmação foi endossada pela jornalista Flávia Oliveira. “Há leis que protegem as crianças, os trabalhadores, os idosos, mas não há políticas para a juventude. Há uma desqualificação das preferências dos jovens. Nós adultos muitas vezes entramos nisso de não ouví-los e reprimir suas opções”, descreve.

O cientista social Leonardo Sakamoto também participou da discussão e apontou a necessidade de construir um debate público qualificado. “A gente precisa educar para os Direitos Humanos. Se avançássemos neste assunto teríamos um debate qualificado e as pessoas não elegeriam esse modelo de políticos”. Ele disse ainda que a construção desse debate é fundamental para que as pessoas parem de propagar discursos de ódio. “Temos que ter uma alfabetização em mídia. Todo mundo conhece alguém que compartilha notícias sem checar a fonte. A sociedade não está preparada para entender a mídia”, acusa.

Internet como ferramenta de mudança

Átila disse que a mídia contribui muito para que a cultura do medo se espalhe, mas que ela também pode ser uma ferramenta que auxilie na hora de garantir os direitos principalmente dos jovens. “Eles continuam fazendo rolezinho, eles continuam indo à praia sem dinheiro. Eles reafirmam todos os dias seu direito de viver e acabam pagando caro por isso”. Sakamoto finalizou dizendo que construir intermediações entre os discursos é fundamental. “As redes sociais são apenas uma camada de inteiração, temos que estar nela, mas também nas outras, como as ruas”, concluiu.

 

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